‘MEU QUASE ENCONTRO COM RADUAN NASSAR’ – Por Ramon Franco

Assinava a revista Piauí e, na mesma época, a National Geographic Brasil. Para quem gosta de ler não existe alegria que possa ser traduzida quando nos chega a revista mensal. Geralmente, era surpreendido, sábado à tarde, com a leveza da queda das duas revistas, embaladas no plástico, na garagem de casa. Como me disse o escritor e dramaturgo Oswaldo Mendes, o Oswaldinho, de ‘Bendito maldito, uma biografia de Plínio Marcos’, nesta época não morava num endereço, mas numa data histórica: a véspera do primeiro Natal sob o golpe civil-militar; Vinte Quatro de Dezembro, 1964.  Foi numa ótima reportagem da Piauí que ampliei os meus conhecimentos sobre o escritor Raduan Nassar, de ‘Lavoura arcaica’ e ‘Um copo de cólera’. Quando havia sido lançado o filme homônimo e inspirado na obra de Nassar, ‘Lavoura arcaica’, com o ator Selton Mello, realmente não conhecia o autor e, ao tomar conhecimento que se tratava de um longa baseado num romance, calculei se tratar de um autor árabe, que até já tivesse falecido. “Mais um filme brasileiro inspirado em gente do estrangeiro…”, de modo ignorante e precipitado julguei. Bem aquilo que o psicólogo Silvio Lopes Peres sintetizou em artigo dominical publicado na imprensa de Marília ‘Pensar é difícil, é por isso que as pessoas preferem julgar’, citando Carl Jung, o psiquiatra suíço pai da psicologia analítica.

Surpresa enorme – a mesma de quando cheguei sábado à tarde e flagrei no canto da garagem as minhas duas revistas mordidas pela cadelinha Iana – tive quando soube que Raduan era brasileiro e que, ativo e forte, preferia outras atividades ao invés de seguir com a sua carreira literária. Aliás, promissora e exitosa carreira. Como Rubem Fonseca e J.D. Salinger, ambos vivos naquela época, Nassar se mantinha longe dos olhares da Imprensa. Estava envolvido com a produção agropecuária e com várias lavouras nada arcaicas em uma rentável propriedade no Interior de São Paulo. Outra surpresa: descubro que, assim como eu, Raduan havia nascido em uma telúrica cidade do Interior paulista. “Nossa, achei que era um árabe falecido e descubro que é brasileiro e paulista interiorano, igual a mim…”.

O que a mão direita faz, a esquerda não precisa saber. Mas, na atitude humana e cidadã de Raduan, não só a esquerda, mas o corpo todo e o mundo precisariam saber. Ele doou sua fazenda altamente produtiva (só com a soja, lucrava anualmente mais de R$ 1milhão, conforme valores da época) de porteira fechada para o Estado brasileiro, no caso, representado pela Universidade Federal de São Carlos, a Ufscar. Esta propriedade ficava na zona rural de Campina de Monte Alegre, na região de Itapetininga.  Após os trâmites burocráticos, marcou-se um jantar para a celebração desta transferência e a solenidade aconteceu em Campina de Monte Alegre numa sexta-feira de 2014. No dia seguinte, alheio a este fato, cheguei  em Campina de Monte Alegre acompanhando o professor Eduardo Negrão na homenagem que o Município faria ao seu pai, ex-combatente da Revolução de 1932. Totalmente desavisado ao que havia ocorrido na véspera, na hora do almoço, acontece de sentar ao lado do prefeito da cidade. Na conversa comigo, ele conta: ‘Então, ontem quem esteva sentado ao meu lado assim como você era o Raduan…’. Completei a frase: ‘O Nassar?’. “Isso, o autor de ‘Lavoura Arcaica”, ele esteve aqui por causa da doação da fazenda…”.

  • Ramon Barbosa Franco, 41 anos, é escritor e jornalista, autor de ‘A próxima Colombina’, ‘Contos do Japim’, ‘Getúlio Vargas, um legado político’ e das narrativas inéditas ‘Os canônicos’, ‘Canavial, os vivos e os mortos’ e ‘Dias de pães ázimos’ (e-mail: ramonimprensa@gmail.com)